Morar na Ásia por muitos anos me ensinou uma série de coisas. Uma das mais belas é que o reverenciar pode ser mais profundo e íntimo que um beijo de oi, ou um abraço de tchau.
O namaste se popularizou de uma tal forma no ecossistema do yoga ocidental, quase como um gesto obrigatório antes de começar uma aula de yoga. Mas temos que nos lembrar que a repetição distante da mindful intenção se torna robótica, como se cabos habituais inconscientes movem-se as nossas mãos a frente do peito, ao invés dos nossos corações.
No budismo, o gesto de se curvar como comprimento reflete uma tríplice verdade correlacionada. São os três pilares do Dharma, Sangha e Buddha.
A palavra Dharma possui muitos significados, porém nesse contexto significa os ensinamentos que sustentam a base filosófica do conhecimento. Dentro da infinidade imensurável de cânions e mais textos e escrituras do budismo em suas diferentes vertentes, na minha humilde opinião, a compaixão é a que mais me toca, e a que eu acho mais relevante e necessária também, ainda mais num mundo de guerras. Até mesmo dentro do budismo Zen, muitas vezes mal interpretado por leigos que o resumem na definição “nada existe, Deus não existe, então só existe o vazio”. Que triste, seria tudo isso, né? Um buraco negro de vazio…
A verdade é que a realidade em que vivemos, absolutamente tudo a nossa volta, é vazio de intrínseca realidade, pois coexiste inseparavelmente de um eu (falso eu). O verdadeiro eu é vazio de si. Algo só pode ser vazio de si se for cheio de algo, como um copo no ar, ou um balde num poço com água. Esse paradoxo da realidade, aonde o nada só pode ser tudo e vice versa é brilhantemente traduzido na frase do belíssimo filósofo Naga Arjuna. Ps.: tinha que ser um cobra, pra variar, né?
“Sunyata Karuna garbham”
A vacuidade é o útero da compaixão.
Esse vazio que também é mencionado por Patanjali nos Yoga Sutras (svarupa sunyata) assim como em textos do Hatha Yoga, e também de uma outra forma, porém bastante similar nos Upanishads, está relacionada ao ego. Como no conhecido exemplo: a lamparina é vazia de si já que se a investigarmos mais a fundo descobriremos que em sua essência não passa de barro.
Temos que desapegar, assim como uma serpente troca de pele, e uma mãe pari um filho, da nossa identidade que tanto queremos manter para podermos emanar o brilho da compaixão. Nessa vida não viemos para ganhar e sim para dar, e só se pode servir com amor genuíno quando o egoísmo do eu se torna vazio. Vazio de ego.
O Dharma sustenta a prática e merece ser reverenciado a cada respiração. Sem o conhecimento partilhado pelos nossos professores jamais estaríamos lendo esse texto agora. Buddha disse, aquele que está interessado no Dharma não está interessado em nada mais.
E sem a comunidade de pessoas que vivenciam o conhecimento tal realização também não seria possível. Pois é a comunidade que faz com que os ensinamentos tornem-se aplicáveis e também sejam mantidos por milênios. É aquele velho ditado, sem aluno não há professor. E de acordo com o Buddha, o próximo Buddha seria o Sangha.
Mas eu diria que o Sangha é muito mais do que isso. É a fé que sustentamos em manter a prática acesa devido à outros seres vivos, especialmente humanos, a nossa volta. Em comunidade podemos ir mais longe… para a outra margem do rio. “Om gate gate paragate parasamgate boddhi svaha”
E para esse rio se encontrar no mar, teve que deixar de ser uma gota, abrir mão de si pra se juntar no todo. E uma gota sozinha jamais chegaria no oceano da consciência.
E quem seria essa força consciente pulsante indiferente de tempo e espaço? Buddha.
O Buddha neste caso não se refere a uma pessoa em particular (como Gautama), mas o potencial latente vasto da consciência infinita de pura bem aventurança presente.
Buddha é a pura compaixão, até aonde o conhecimento é transcendido. Buddha é “awareness”. É a experiência não dogmática da realidade plural que tece todo os mundos. Sem essa força pulsante, nada somos. Ou melhor, só somos por causa dessa consciência.
A palavra Buddha vem do radical “Budh” que significa despertar. Reverenciar o despertar não é reverenciar alguém, mas esse brilho que está sempre acessível e ao nosso alcance. Como no star wars, “a força”, lembram? Hehe
Então meus caros, quando se curvarem na próxima aula de yoga, num templo, ou na floresta, lembrem-se que não estamos se reverenciando necessariamente para o professor, mas para os pilares que sustentam a prática, presente em tudo.
Om Mani padme hum
Rapha
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