Acabo de sair de um savasana atemporal. A chuva caia, o silêncio cantava e a vulnerabilidade era o que me derretia nos cantos do meu tapete (além do calor da Indonésia). Apaguei por fora, mas acendi por dentro.
Estou na segunda semana de um curso intensivo de yin yoga com foco nos pontos de acu pressão da medicina chinesa. Está sendo maravilhoso. O estúdio de yoga em Bali é completamente o oposto do que estava estudando em Singapura. Um dentro do shopping, o outro na selva, um com academia ebulindo putz putz na aula de jumping, o outro com pássaros cantando, um sem janela, o outro sem parede, um se acessa por escada rolantes, o outro pisando descalço nas tábuas de madeira maciça. Diferentes, mas ambos possíveis de se praticar yin.
Obviamente eu acredito que não preciso dizer qual destes estúdios de yoga acima é meu favorito, certo? Porém, a prática de yoga é uma bússola de calibre muito sutil e precisa que serve primordialmente para uma coisa: nos harmonizar. Uma vez perguntaram ao professor Dharma Mittra quem era o seu guru e ele respondeu “Nova Iorque”.
Nos estudos do samkhya, gita e yoga, os gunas são explanados como forças dançantes da natureza que operam incessantemente ditando a impermanência da vida. Tal variação constante, oposto do que muitos de nós muitas vezes achamos, é uma benção. Imagine o quão chato seria se vivêssemos apenas em um estado de humor permanente, ou única estação do ano, ou se o seu companheiro(a) estivesse sempre triste, ou sempre ultra entusiasmado. Esses ciclos cambiais energéticos de pausa, sono, quietude, silêncio, fim, inércia, inatividade assim como movimento, atividade, excitação, começo, paixão, despertar são as forças dos opostos de tamas e rajas. Na prática filosófica do taoismo, os chamamos de yin e yang. Recentemente trombei com uma pessoa no vestiário enquanto ensinava em Bruxelas, e perguntei “Como você está ?”. Ela disse “estou me sentindo muito bem, sempre estou feliz; depois que voltei da Índia meu humor não muda, estou sempre num estado de bem aventurança”. Na hora pensei “eita se iluminou”, mas na verdade o que estava dizendo é que estava passeando pelas humores da vida sem apego.
A harmonia de rajas e tamas tem como resultado sattva. A expressão “voltar para o Tao” significa retornar ao equilíbrio, ao caminho do meio, ao centro.
As energias dos opostos sempre irão existir, assim como o dia, e a noite, o claro e escuro, a água e o fogo, o frio e o calor, o sólido e o líquido, o dentro e o fora, o visível e o invisível, o duro, o mole, o externo e o interno, o masculino e o feminino. Os gunas que estão atuando externamente são os mesmos que atuam internamente, pois tudo é prakrti, ou seja, voltar para o estado de equilíbrio não é deletar tamas, ou acabar com rajas, mas permitir que tais estados fluam dentro de você da mesma forma com que eles fluem no externo.
Estar junto com a natureza é formidável pois é como se os gunas internos e externos se harmonizassem e o nosso sistema nervoso restaurasse sua capacidade de relaxar.
Voltar para o Tao não significa 50% yin / 50% yang, ou apenas yin ou apenas yang, mas sim voltar ao equilíbrio da dança da natureza do micro e do macro, na qual se adapta e se ajusta as necessidades apresentadas no cotidiano rotativo da vida ordinária. Viver em harmonia é aprimorar nossa sensibilidade ao ponto de entender que são os gunas atuando, e que se eu não respeito tal ordem e surfo a favor da onda e bailo com a música, sofro.
O caminho do meio é um caminho de refino diário ininterrupto de contemplação individual e macro ambiental, que nos possibilita como um perfumista misturar essências na dose certa para tornar a vida uma ikebana.
O que causa o sofrimento é o extremo tanto da energia yin, como da yang. É por isso que na belíssima yantra do taoismo temos um ponto claro, dentro do ponto escuro, e um ponto escuro dentro do claro, e uma linha ao meio os separando. E veja que essa linha não é reta, porque não existe absolutismo na impermanência da vida. A vida é uma dança. O excesso é a causa de todas as doenças humanitárias. E nos dias de hoje, o excesso principalmente devido a hiper excitação midiática, consumo desenfreado doentio, ultra sonoridade, horas de trabalho incessantes, e pouca horas de sono, está desenfreado. O que falta é yin.
Não é sobre ir rápido, mas sobre ir profundo, não é sobre apenas falar, mas escutar, não é sobre gratificações instantâneas e sim sobre retardar o desejo frenético do ego. Fazer menos na vida é muitas vezes fazer mais. Hoje a professora Jo Phee falou algo que me tocou profundamente.
“A sociedade tem medo de fazer menos pois na verdade está com medo de morrer”.
SIM. O que morre quando não se faz nada? O ego. Michael Stone mencionou num de seus podcasts, (falando nisso vocês precisam escutá-lo), que a felicidade humana está na capacidade de você ficar sozinho em um quarto sem fazer nada. Sozinho, no escuro, sem fazer nada, é o yin absoluto. A sociedade está depravada de descanso. Quantos de vocês tem insônia, ou depressão, ou quantas pessoas que vocês conhecem tomam tarja preta? A sociedade está constantemente fazendo, fazendo, fazendo e se quer pausando. Na verdade construímos dentro de nós esse orgulho fajuto de que se tornarmos workaholic estaremos realmente levando a vida a sério. Mas será que estamos realmente em equilíbrio com a natureza? A natureza descansa, não descansa?
Quanto praticamos yoga a limpeza energética do nadis nos leva ao estado de homeostase. Na prática de yin yoga, quando fazemos as posturas as linhas dos meridianos se fortificam e o sistema nervoso também se acalma, levando o praticante a homeostase.
O segredo de uma vida plena, é simples. É muito simples e não se encontra na eliminação, e sim na habilidade de fazer o jogo certo para todo dia conseguir “bater” e não cair no buraco do extremo, sem blefar. A distorção entre os gunas dos personagens e da natureza é o que chamamos de doença, pois quando se tem clareza de quem se é se flui, e não há mais a necessidade de segurar tal identidade com apego. Inteligência é perceber que os gunas estão atuando neles mesmos, é prakrti atuando na própria prakrti.
Aprender a se equilibrar é seguir o ritmo da música, e nos dias de hoje a música que mais precisamos é a do silêncio. Assim nos tornamos livres, e como o professor Jonas disse recentemente “Um ser humano saudável, é um ser humano que flui na vida”.
Harih Om,
Raphael Melo.
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