A obsessão pela forma, a “asanerexia” e o samskara coletivo que vivemos #5

1 de outubro de 2026

Alguns anos atrás quando estava ensinando um curso de formação intensivo na cidade de Shenzhen no sul da China, uma das alunas reclamou com a gerência da escola que suas expectativas não estavam sendo alcançadas. Ela queria parar o curso e receber o dinheiro de volta. Eu resolvi ir falar diretamente com a estudante para entender exatamente o cenário polêmico. Em um dos intervalos, fui até ela e perguntei o que estava acontecendo. Ela me disse que já estávamos indo para a terceira semana do curso e ainda não tinha conseguido fazer hanumanasana, pois seus quadris estavam muito distantes do solo. No entanto muitos dos seus colegas conseguiam fazer esse asana com maestria, e que ela jamais seria uma boa professora se não fizesse. 

É curioso a proporção que o yoga tomou. Não é culpa do yoga, nem dela, e sim do sistema onde vivemos. Tais situações acontecem não só no ocidente mas hoje em dia também na própria Índia. Digo isso pois conheço muitos professores Indianos pelo mundo. Não sei se no passado era pior ou melhor, afinal o que era ensinado 2 mil anos atrás ainda é ensinado nos dias de hoje. O que sei é que nosso papel como praticante ou professor é comunicar e compartilhar a essência do yoga, não como um telefone sem fio que distorce o significado fidedigno da mensagem, mas sim como um contador de história fiel, que ensina a essência da verdade através da lente do seu coração.

A forma externa é deslumbrante, apaixonante, hipnotizante, excitante e bela. Quem não se encanta pelo belo por do sol do deserto do Rajastão, ou o verde esmeralda do mar de Bali? As formas que compõem a natureza do planeta são perfeitas, assim como o corpo humano. Explorar a potencialidade corporal humana, se você tiver os ossos para isso, e prestigiar o trabalho de bailarinos profissionais, cirquences, acrobatas, e até mesmo yogis elásticos, é admirável. No entanto, o “x” dá questão está no velho e bom amigo (ou inimigo), EGO. 

O mar não se importa em como deve oferecer suas ondas nas rochas, nem o sol em como deve emitir seus raios sobre as dunas, nem o yogi que está em total absorção no momento presente. A natureza não precisa de validação para ser amada, nem o verdadeiro artista. Este sabe no âmago do seu ser que sua obra veio do coração, independente do que irão dizer sobre seu talento. 

A obsessão pela forma se tornou uma “asanerexia”, e professores de yoga se tornaram “performers” de corpos flexíveis. O medo da não aceitação é a mesma doença que existe na indústria global da beleza/fashion/moda por exemplo. Se não fazer tal séria do yoga, ou postura, ou isso, ou aquilo, ou decorar tal texto, ou mantra…jamais será aceito. Se não tiver o abdômen de tal jeito, ou a bunda de tal tamanho, você não será amada! É o samskara coletivo que cada país possui. 

O que de fato buscamos dentro de toda essa miopia de aceitação? Queremos ser profundamente amados. Mudar o sistema não é fácil, pois a indústria fatura em cima de tudo isso. No entanto, meu caro, se você compartilha o yoga de forma autêntica, saiba que sempre fomos contra a maré das tendências do samsara.

Meu professor costuma dizer que aquele que está presente no asana desaparece. Obviamente não leve isso literalmente, afinal eu nunca vi ninguém desaparecer na minha frente numa aula de meditação (risos). Suas palavras descrevem o ego, que quando neutralizado, excede tempo e espaço. O objetivo da prática como o professor Leslie Kaminoff diz não é levar você para algum lugar, e sim, retirar do meio do caminho o que te impede de simplesmente estar vivendo o agora. 

O prazer genuíno que você tem a praticar yoga repetidamente não é pela playlist (pelo menos não deveria ser), pela postura alcançada, ou ajuste do professor. Voltamos pois sentimos o sabor atemporal de nirodha. O deleito em mergulhar no momento presente e se despir de qualquer rótulo e atributo a experiência sentida. Em total suspensão reconhecemos o poder da liberdade e nesse estado nada mais importa. 

E afinal de conta de que importa fazer um espacate se você não consegue nem ir comprar um pão na padaria nessa posição?

Expliquei para a aluna que yoga era muito mais do que isso, e decorri todos os temas que estávamos estudando ao longo do curso, os insights filosóficos, os saberes ancestrais, a beleza misteriosa das formas internas e muito mais. Até disse, que no Brasil ela seria uma das mais flexíveis na sala de aula (lol), e que tudo é uma questão de contexto. Ela entendeu, mas não entendeu…mas sei que um dia irá entender.

As vezes queremos comer uma fruta fora do tempo e a puxamos da árvore. Assim é o conhecimento. E é um desafio remar contra sistemas que ultra validam o externo. Lembro quando mudei para a China em 2010, e o quanto me sentia inferior pela minha prática de asana durona. Mas quando se ganha intimidade e confiança no legado passado de mestre para discípulo, não se precisa tentar provar mais nada para ninguém, pois o param param é o saber que nutre sem ego. Quando conheci Richard Freeman em 2013, isso mudou, renasci.

Ela pelo menos terminou o curso. Acredito que de alguma forma a semente foi plantada. 

Que possamos no estado de yoga estabelecer intimidade como o momento presente, independente de como o nossa asana precise aparecer externamente, afinal, se soubéssemos a infinidade de variações pélvicas que existem no planeta terra, compreenderíamos que as diferenças externas são tão belas quanto as variações “esqueléticas” das árvores, nuvens, flores, montanhas, ondas…

Com amor, 

Rapha

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