Caminhos de cura: natureza, yoga e o retorno ao essencial #9

28 de outubro de 2026

Essa é a minha primeira manhã de volta a rotina no Brasil depois de um longo período de viagens entre Europa, Ásia e América do Sul. Foram 3 meses de muito trabalho, incluindo 2 workshops e aulas na Bélgica e na Itália, dois cursos de formação em Yin Yoga e Acupressão em Singapura e Bali, e um pouco de férias na Turquia e Chile. 

Acordei, fiz a minha meditação matinal em frente ao meu altar no templo (quarto de sadhana), e dei sequência a minha manhã. O rodízio de carros na cidade está desativado até o dia 5 deste mês, então pude dirigir até o Myyoga (unidade clube hebraica) para dar minha primeira aula do ano, e logo depois fui ao Instituto Chão comprar alimentos para a semana. Eles vendem orgânicos e possuem uma forma muito bacana de cobrar os produtos com transparência mostrando o quanto lucram em cima. Vale a pena uma visita quando vierem para a capital.

A cidade de São Paulo poderia ser mansa o ano todo como no mês de janeiro, tirando a construção que começou bem na frente do meu apartamento e seguirá nos próximo dois anos pelo menos. Já estou com saudades da floresta, montanha, do mar, rio, dos cantos dos pássaros e do silêncio quente e vulnerável do deserto. 

Estar na natureza é relembrar que somos bichos. Ela me inspira a movimentar com o coração, sem muita razão, ou planos, com força e sutileza, com tesão, mas sem erotismo. A natureza é a mestra da humildade e seu maior ensinamento é nos mostrar que somos ninguém. E como é bom poder ser ninguém, só assim, conseguimos ser tudo e todos.

A proximidade com a natureza me ensina:

Sou bicho,
Animal,
Selvagem,
Por último humano.

O que mais colho viajando são os resíduos de inspiração nas expirações das falas dos desconhecidos que Deus coloca a minha frente. São os anjos de Īśvara disfarçados em epidermes assimétricas em lugares inesperados com falas certeiras como flechas que acertam o alvo do coração. Segue um trecho de uma poesia que escrevi em 2020:

O mestre está presente,
A todo e qualquer instante.
Nos mais brandos se comunica,
As vezes por livros, por amigos, 
por professores, animais, estranhos ou viajantes.
O mestre sempre nos guia,
É como estrelas que não deixam de brilhar.
Ascendem nossa alma,
Iluminam nosso caminho,
Nos reconectam a verdade que é o amar.

No último dia na cidade de San Pedro do Atacama (deserto mais seco do planeta) no Chile conhecemos um vendedor diferente enquanto estávamos testando algumas flautas para comprar em sua loja. Lembro que ele não estava ali apenas para vender, seu olhar era profundo, ele nos olhava nos olhos com verdade. Perguntei se ele sabia tocar. Ele me ofereceu uma flauta, pegou a outra, e me guiou em uma melodia conjunta que segundo ele era para entrar em transe como nos rituais. Tocamos, ouvimos, paramos e então ele começou o satsanga inesperado que durou quase 1 hora, e só pausava entre uma entrada ou outra de demais turistas no estabelecimento. Nascido no Peru, compartilhou que desde infância aprendeu sobre as medicinas da floresta, pois seus pais conheciam muitos xamãs da floresta amazônica que de vez em quando os visitavam para realizar rituais. Experimentou todas elas, mas disse que a melhor medicina somos nós mesmos. Disse em espanhol “Yo soy mi propria medicina”. Essa frase mexeu comigo. 

A frase acima resume o motivo principal pela qual praticamos o Yoga. O praticamos e inserimos em nossa própria rotina como um remédio que se assemelha ao crescimento de uma árvore. Crescemos para dentro como as raízes, e então crescemos para fora como os galhos. Essa é a medicina do autoconhecimento, e com ela despertamos a capacidade de olharmos para dentro, nos desenvolver e aprender com nós mesmos, para crescer, florir, e fazer aquilo que uma árvore faz com magnificência: dar frutos e nutrir o mundo a sua volta. Ser abrigo para os que precisam, alimento espiritual para os que necessitam, frescor para os desamparados e ar para inspirar e ajudar o próximo. 

Todavia, assim como o sono recarrega o nosso corpo durante a noite, ao longo do dia precisamos recarregar as baterias espirituais. Para isso, é muito importante estarmos conectados a fonte do conhecimento, com os nossos professores, amigos verdadeiros (família espiritual), através da oração, sadhana e em contato com a natureza.

A natureza tem uma capacidade de cura incomparável, e nós humanos pertencemos a ela. Quando escuto pessoas dizendo que somos muito melhores do que os outros animais, me pergunto, viveríamos sem esses demais seres a nossa volta? O ego humano tem a capacidade de criar máquinas para ir até a lua, mas a incapacidade de ajoelhar na terra e colocar a testa no chão em agradecimento. Quando foi a última vez que você tomou um banho pelado num rio? Ou comeu uma fruta direto do pé? Ou dormiu numa casa feita a barro? Ou acordou com o sol nascendo na sua face? Que vida queremos dar aos nossos filhos? Que planeta queremos deixar aos nossos netos?

Humanos vivem se esquecendo que seus futuros parentes irão continuar vivendo nesse mesmo planeta, assim, vivem sem nenhuma responsabilidade aos seus sucessores. Os amam, mas matam o seu futuro, estupram sem piedade sua casa (planeta), dilaceram seus próprios pulmões, queimam suas árvores, poluem seus rios e entopem os nadis. Será que o caminho é termos num futuro próximo hologramas de árvores nas ruas das nossas cidades? Ou gravidez artificiais em úteros similares a ovos externos como no filme “The Pod Generation?”. Nas grandes cidades crianças acham que o leito vem da caixinha e já não da vaca. O futuro está mais próximo do que imaginamos, e a escolha de estar mais próximo da natureza não deveria ser opcional, mas sim vital. 

A natureza é a nossa grande mãe e todos os povos originários a honram. Na cultura da cosmo visão Andina, as montanhas são nosso avôs, os rios nossas irmãs mais velhas e os animais nossos irmãos mais novos. Isso é intimidade, isso é samadhi! Um dos mudras mais emblemáticos de Buddha é o bhumiparsha-mudra, aonde ele está tocando a terra com todos os dedos da mão direita, nos mostrando que Nirvana não está em um lugar distinto na “terra do nunca”, mas aqui, bem aqui, bem mais próximo do que você imagina. Na sagrada terra. No momento presente. Nirvana significa extinguir, cortar o ego que separa e leva ao sofrimento. Não existe paz sem união e liberdade sem neutralização do ego.

Que o ano de 2024 seja maravilhoso para todos vocês, com muita natureza, cura e yoga medicina. 

De acordo com calendário chinês, o animal que o rege é o dragão de madeira de energia yang. Um ano de disposição para realizar o impossível, com muita imponência, movimento e força. Foi nessa energia do dragão que eu me mudei para a China em 2010. Foi um ano positivamente inesquecível para mim, que requereu muita coragem e fé… um ano inesquecível que por causa dele estou aqui escrevendo esse texto em 2024.

Uma última poesia:

Na natureza voltamos,
Relembramos de ser novamente animais.
A casa que jamais nos abandona,
O berço da nossa ancestralidade.
Curioso é viver em jaulas e glorificar metais verticais.
O melhor da vida está no horizonte,
Mas é o morrer que muitas vezes me deixa mais perto do céu. 
Não escrevo só pelo amor, nem poetizo só na alegria,
É o dual que me chama, me devora, me engole.
As palavras transpiram das minhas mãos, sabe?
No caos, muitas vezes respiro calmo e me acho aqui:
Livre, aberto, transparente, para ser quem eu sou.
E quem é esse eu sou? 
Você. Então:
Choro, amo, e sinto... Ahh mas sinto, mas sinto muito, como se estivesse pronto a dar à luz a um sentimento que não consigo achar palavras em nenhuma língua. 
Mas é cheio como a lua, quente como o sol e livre como o ar.
Amor? Não sei... mas me deixa embriagado de prazer. Muito prazer.

Harih om,
Rapha.

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