Lembro quando escutei pela primeira vez a explicação do professor Richard Freeman sobre fé em um dos seus cursos sobre os Yoga Sutras de Patanjali. Ele disse com sua voz suave e uma das sobrancelhas levantadas (sua marca registrada) a seguinte frase:
“Fé é a habilidade em não saber, como a confiança. A habilidade em praticar yoga é a habilidade em não saber. É estar contente com qualquer fórmula do conhecimento é a habilidade em não saber sobre o absoluto”.
A habilidade em não saber é uma das características que nos torna humanos, não é verdade? Não sabemos absolutamente nada e mesmo quando achamos que sabemos alguma coisinha o mundo nos apresenta situações que desafiam até mesmo a força da gravidade. Como Sócrates dizia “só sei que nada sei”. Devemos nunca nos esquecer disto.
Paradoxalmente, é a confiança no desconhecido que nos torna crentes no momento presente, e poder acreditar na força do agora é manifestar o nosso poder total de fé. De certa forma se não sabemos nada do que vai acontecer e mesmo assim vivemos como se soubéssemos cada passo que o futuro irá nos dizer, podemos dizer que o ato de estar vivo já é um ato de fé, já que estar vivo é acreditar no desconhecido, é confiar na certeza do momento presente. Assim, somos então seres de fé, contudo ter fé e manifestar a fé com fé verdadeira são coisas distintas.
A fé é uma confiança fervorosa e inabalável no momento presente que ignora qualquer pensamento contrário a crença desejada. É confiar com coragem na ordem divina e acreditar com vontade na vastidão do momento presente. É a fé que nos mantém vivos e que estreita os laços entre professor & aluno no caminho espiritual.
Em 2015, eu estava uma vez no centro de bhakti yoga em New York em uma palestra, quando um dos devotos comentou sobre a missão que Srila Prabuphada recebeu para ir para o ocidente espalhar os ensinamentos da tradição e especificamente cantar o Maha mantra Hare Krishna. Em 1965, aos 69 anos, Srila Prabhupada viajou para Nova York a bordo de um navio cargueiro. A viagem foi traiçoeira e o idoso professor espiritual sofreu 2 ataques cardíacos a bordo do navio. Chegando aos Estados Unidos com apenas 7 dólares em rúpias indianas no bolso e suas traduções de textos sagrados em sânscrito, ele começou a divulgar os ensinamentos da consciência de Krishna.
Prabupadha costumava ir ao Central Park e entoar Hare Krishna e pregar os ensinamentos de acordo com o pedido do seu guru, que havia lhe incumbido a missão de levar os ensinamentos para o ocidente. Ele tocava os instrumentos e cantava os mantras e no começo havia pouquíssimas pessoas. Um belo dia havia apenas três pessoas, uma sorria, a outra movimentava a cabeça e a outra mantinha-se neutra achando aquilo tudo muito estranho. Ele voltou para casa logo depois, abriu o seu diário e escreveu “hoje foi um sucesso”.
Hoje só foi um sucesso pois ele tinha fé na sua missão, ele tinha fé no momento presente, no seu dever, mas principalmente nos ensinamentos do seu professor. Sua fé exalava pelos poros da sua pele em suas orações diárias que dizia “se eu sou um sucesso ou uma falha me guie. Eu sou seu instrumento”.
Sua mensagem espiritual ressoou em muitos jovens, alguns dos quais se tornaram estudantes sérios da tradição de Krishna. Com a ajuda desses estudantes, Srila Prabhupada alugou uma pequena loja no Lower East Side de Nova York para usar como templo. Em julho de 1966, ele registrou oficialmente sua organização no estado de Nova York, fundando formalmente a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON). Assim o movimento Hare Krishna começou a se espalhar pelo mundo e hoje em dia temos a benção de termos a maior comunidade da América Latina no Brasil, a belíssima fazenda Nova Gokula em Pindamonhangaba, um local que vocês precisam ir visitar. Se forem lá não deixem de ir na barraca da Eka (amo essa família).
Uma vez perguntei a minha querida avó como que eu precisava fazer para ter fé, e ela me disse sorrindo “Meu querido neto Raphael você já nasceu com fé”. A fé é algo inabalável, é imensurável. Ela é uma das pessoas que eu conheço que mais tem fé. Já a vi inúmeras vezes ajoelhando no chão e clamando com muita fé… é de arrepiar.
No novo testamento a palavra fé aparece 250 vezes e minha avó Vitória segue os ensinamentos de Jesus exemplarmente.
Na escritura Hatha Yoga Pradipika é mencionado as 6 causas de sucesso no yoga e uma delas é a fé. O texto diz que é necessário a fé inabalável em acreditar no seu guru. Se alguém duvida da verdade última ou do seu próprio guru, como pode haver qualquer tipo de sucesso. Nos Yoga Sutras de Patanjali, Sraddha também aparece como uma das 5 atitudes do aspirante no caminho espiritual, que é desenvolver a fé de estar indo na direção correta.
A verdade é que sem fé a vida se torna morna. É a fé que nos impulsiona em nos lançar nos braços do desconhecido. A fé não é barata, e nem deve ser cega como uma crença que não demanda nenhum tipo de esforço do praticante ou que busca apenas alguma recompensa como o iphone do ano, mas é um momento de conexão profunda. E a melhor forma que podemos estabelecer essa intimidade é pelo momento de oração. É na oração que nos aproximamos da nossa fé e colocamos lenha nas nossas intenções para que no momento presente os nós dos Karmas se desatem e nossas novas ações ganhem força.
Acreditar no momento presente é não se deixar iludir com os desdobramentos impermanentes e inusitados da vida, é desenvolver fé no tabuleiro de Deus, na mensagem do nosso mestre, nos sinais e pistas da natureza. Ter fé é acreditar tão profundamente no momento presente, e nesse lugar compreender que não podia existir lugar mais seguro no universo todo, já que quem está no comando dessa peça é algo muito maior que você e eu. É o Eu. E ter fé é acreditar que quem a dirige não sou eu. É como lavar a roupa, quem a lava é a máquina, e o meu papel é apenas ir lá e abrir a tampa, colocar a roupa lá dentro e apertar o botão. Este apertar o botão é a confiança que precisamos desenvolver em Deus. E ele que faz o trabalho sempre!
Ter fé é acreditar naquilo que é imutável, é abandonar as formas, e como Krishna diz no último capítulo da Gita “abandone suas ações do mundo e aprenda como encontrar refúgio em mim e não nos objetos. Eu vou liberar você de todas as impurezas da mente, não sofra”. As ações no final são de Krishna, você só apertou o botão da máquina… você só precisa confiar.
Confie, tenha fé! Como Rabindranath Tagore disse:
“A fé é o pássaro que sente a luz quando o amanhecer ainda está escuro”.
Essa luz é a luz de Deus, sempre irá brilhar.
Com fé,
Raphael Melo.
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