Me lembrei de uma frase que escutei alguns anos atrás enquanto escutava um podcast do professor Michael Stone, e gostaria de compartilhar com vocês pois ela me tocou profundamente.
“Viva de uma forma em que as suas ações estejam de acordo com os seus valores.”
A frase acima não é extraordinária, mas é na simplicidade que a sua beleza se encontra.
Qualquer coisa que você faça no seu dia a dia pode se tornar algo espiritual desde que você a faça de forma totalmente presente, profunda e inteira. Espiritualidade não tem nada a ver com um estado desconectado do corpo, mas pelo contrário; existe uma conexão tão profunda com os sentidos do corpo que supressa o material. Mas, para ir além do material é preciso se conectar com o material para libertar o apego ao próprio material. Este paradoxo da prática está presente em todas as tradições espirituais do mundo e se resumem ao que no yoga chamamos de Karma Yoga: fazer algo com tanta presença ao ponto de evaporar o ego e transcender o material.
O bioproduto de um bom yogi/yogini está na forma com que ele se relaciona com as pessoas a sua volta. E é na família que confirmamos a nossa evolução espiritual e não com os amigos que encontramos uma vez ou outra na mesa do bar pra falar de futebol ou fofocar.
Todos os mestres como Jesus, Buddha, Mohamad, Mahavira, e entre outros compartilhavam o conhecimento não só através de palavras, mas pelas suas ações sociais emblemáticas. Eram pessoas que ensinavam o bem, praticavam o bem e viviam o bem em suas relações.
Para mim yoga é relacionamento. Yoga é desenvolver cordões umbilicais relacionais com todos os reinos a nossa volta. E a nossa responsabilidade como ser humano, e principalmente praticantes do Dharma, é polir a nossa forma de resposta num tom apropriado e respeitoso. Imagine se todas as pessoas conseguissem pausar por 5 respirações antes de tomar certas decisões, responder a outros indivíduos e contra atacar? É simples, né? Só que não.
Quando conseguimos agir da forma com que gostaríamos de ser tratados, começamos a recriar a realidade a nossa volta, já que vemos o mundo através da lente do nosso próprio julgamento. Patanjali ensina sobre a importância dos Yamas e Niyamas, e, Buddha sobre o caminho óctuplo como práticas que nos conduzem à liberação do ciclo do Samsara. Essas são ferramentas potentes que nadam na direção contrária da reatividade.
Lembro que em inúmeras vezes ao longo da vida minhas atitudes seguiram certas direções pois o compasso do Dharma estava sussurrando na minha orelha “será que isto que estou prestes a fazer está realmente alinhado com os meus valores?”
Quando estamos firmes e convictos nos nossos valores conseguimos ao mesmo tempo relaxar, já que não precisamos mais da aprovação de ninguém, afinal, Deus sabe quando queremos apenas o bem maior e entregamos o nosso coração em cada ação.
Tudo é impermanente, mas tem algo que na minha opinião que pode ser mantido dentro do possível, e tal coisa é a ética. Tudo muda: humores, estações do ano, sonhos, projetos, pensamentos, roupas do armário, amigos, flores da mesa de casa…Mas se conseguirmos manter os nossos valores bem irrigados de princípios como o do amor e da verdade, podemos viver mais plenos e florir aqueles que passarem pelo nosso jardim.
O melhor presente que podemos dar para alguém é o da escuta, o da presença, o do olho no olho verdadeiro, o respeito, a sinceridade sem maldade. E deveria ser dentro da nossa própria casa o lugar mais fácil de se praticar isso, não é mesmo? Mas sabemos que nem sempre é assim, devido aos gatilhos que temos, os samskaras que acumulamos. Mas é também na família que mora esse grande potencial de amar incondicionalmente e a facilidade do agir com transparência.
Como Rumi já dizia “os nosso maiores medos são como dragões guardando os nossos maiores tesouros”. Ou seja, nos nossos maiores desafios reside a possibilidade de iluminação.
Amor sem ação não existe, lembrem-se disso.
E antes de agir existem 3 coisas que em muitos momentos me pergunto e creio que podem ajudar vocês a tomarem decisões. Elas são:
– Qual ação preciso fazer (estar consciente das opções e escolha a ser tomada)
– O que farei está alinhado com os meus valores? A ética?
– Quais as consequências (que consigo projetar)
Imagine que uma mãe viúva, arrimo de família, com 3 filhas pequenas, tem um emprego aonde o seu chefe é desleal e corrupto e ela testemunha situações inadequadas semanalmente. O mais apropriado seria ela encontrar algum outro emprego imediatamente, e na verdade ela não aguenta mais manter esse emprego e “cooperar” com tamanha deslealdade, mas sabe que se pedir demissão não conseguirá sustentar as filhas. Então, por mais que a ética tenha que ser mantida, neste caso a vida dos filhos está em jogo. Não é tão simples assim, não é mesmo?
Mas agora imagine que ela tenha todos os fatores favoráveis e a possibilidade de mudar de emprego, entretanto resolve não mudar mesmo sabendo que está compactuando com corrupção, já que a ganância ao dinheiro é maior que seus valores éticos.
Situações como essa acontecem o tempo todo com a gente e se não estamos bem alinhados com nós mesmos e com aqueles que coabitam o nosso ecossistema, viver se torna árduo. Agora quando ligamos a seta do conhecimento ético na hora de agir geramos confiança no desdobramento da ação, o amor se espalha e viver pode ser mais leve.
No fundo no fundo no fundo, o coração sabe, e só age pelo mal quem não consegue escutá-lo. E a tarefa de um professor(a) de yoga é oferecer ferramentas para limpar os vrttis encascorados na mente dos alunos para libertar o som dos seus corações a ponto de que todos consigam escutá-lo até mesmo no espaço.
Eu espero que vocês tenham passado um lindo Natal, consigo mesmo, ou com a família, e que vocês possam doar aos outros muito mais do que presentes descartáveis, mas sim, envelopes de respeito, palavras de verdade, ombros de acolhimento e ações de amor. Que o amor seja ação e que a sua ação siga a cartilha dos valores do Dharma.
Feliz Natal, Rapha.
Uma resposta para “A harmonia entre suas ações e seus valores #8”
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É muito bom te ler Rapha. Com essas reflexões o coração vai se lembrando de nos guiar novamente.
Obrigada
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