Blog – Omkula https://blog.omkula.com.br Thu, 15 Oct 2026 17:54:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://blog.omkula.com.br/wp-content/uploads/2026/09/cropped-favicon-32x32.png Blog – Omkula https://blog.omkula.com.br 32 32 Caminho do Meio: Yin e Yang na Vida e na Prática de Yoga #7 https://blog.omkula.com.br/caminho-do-meio-yin-e-yang-na-vida-e-na-pratica-de-yoga-7/ https://blog.omkula.com.br/caminho-do-meio-yin-e-yang-na-vida-e-na-pratica-de-yoga-7/#respond Wed, 14 Oct 2026 08:00:00 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=385 Acabo de sair de um savasana atemporal. A chuva caia, o silêncio cantava e a vulnerabilidade era o que me derretia nos cantos do meu tapete (além do calor da Indonésia). Apaguei por fora, mas acendi por dentro.

Estou na segunda semana de um curso intensivo de yin yoga com foco nos pontos de acu pressão da medicina chinesa. Está sendo maravilhoso. O estúdio de yoga em Bali é completamente o oposto do que estava estudando em Singapura. Um dentro do shopping, o outro na selva, um com academia ebulindo putz putz na aula de jumping, o outro com pássaros cantando, um sem janela, o outro sem parede, um se acessa por escada rolantes, o outro pisando descalço nas tábuas de madeira maciça. Diferentes, mas ambos possíveis de se praticar yin.

Obviamente eu acredito que não preciso dizer qual destes estúdios de yoga acima é meu favorito, certo? Porém, a prática de yoga é uma bússola de calibre muito sutil e precisa que serve primordialmente para uma coisa: nos harmonizar. Uma vez perguntaram ao professor Dharma Mittra quem era o seu guru e ele respondeu “Nova Iorque”.

Nos estudos do samkhya, gita e yoga, os gunas são explanados como forças dançantes da natureza que operam incessantemente ditando a impermanência da vida. Tal variação constante, oposto do que muitos de nós muitas vezes achamos, é uma benção. Imagine o quão chato seria se vivêssemos apenas em um estado de humor permanente, ou única estação do ano, ou se o seu companheiro(a) estivesse sempre triste, ou sempre ultra entusiasmado. Esses ciclos cambiais energéticos de pausa, sono, quietude, silêncio, fim, inércia, inatividade assim como movimento, atividade, excitação, começo, paixão, despertar são as forças dos opostos de tamas e rajas. Na prática filosófica do taoismo, os chamamos de yin e yang. Recentemente trombei com uma pessoa no vestiário enquanto ensinava em Bruxelas, e perguntei “Como você está ?”. Ela disse “estou me sentindo muito bem, sempre estou feliz; depois que voltei da Índia meu humor não muda, estou sempre num estado de bem aventurança”. Na hora pensei “eita se iluminou”, mas na verdade o que estava dizendo é que estava passeando pelas humores da vida sem apego.

A harmonia de rajas e tamas tem como resultado sattva. A expressão “voltar para o Tao” significa retornar ao equilíbrio, ao caminho do meio, ao centro.

As energias dos opostos sempre irão existir, assim como o dia, e a noite, o claro e escuro, a água e o fogo, o frio e o calor, o sólido e o líquido, o dentro e o fora, o visível e o invisível, o duro, o mole, o externo e o interno, o masculino e o feminino. Os gunas que estão atuando externamente são os mesmos que atuam internamente, pois tudo é prakrti, ou seja, voltar para o estado de equilíbrio não é deletar tamas, ou acabar com rajas, mas permitir que tais estados fluam dentro de você da mesma forma com que eles fluem no externo.

Estar junto com a natureza é formidável pois é como se os gunas internos e externos se harmonizassem e o nosso sistema nervoso restaurasse sua capacidade de relaxar.

Voltar para o Tao não significa 50% yin / 50% yang, ou apenas yin ou apenas yang, mas sim voltar ao equilíbrio da dança da natureza do micro e do macro, na qual se adapta e se ajusta as necessidades apresentadas no cotidiano rotativo da vida ordinária. Viver em harmonia é aprimorar nossa sensibilidade ao ponto de entender que são os gunas atuando, e que se eu não respeito tal ordem e surfo a favor da onda e bailo com a música, sofro.

O caminho do meio é um caminho de refino diário ininterrupto de contemplação individual e macro ambiental, que nos possibilita como um perfumista misturar essências na dose certa para tornar a vida uma ikebana.

O que causa o sofrimento é o extremo tanto da energia yin, como da yang. É por isso que na belíssima yantra do taoismo temos um ponto claro, dentro do ponto escuro, e um ponto escuro dentro do claro, e uma linha ao meio os separando. E veja que essa linha não é reta, porque não existe absolutismo na impermanência da vida. A vida é uma dança. O excesso é a causa de todas as doenças humanitárias. E nos dias de hoje, o excesso principalmente devido a hiper excitação midiática, consumo desenfreado doentio, ultra sonoridade, horas de trabalho incessantes, e pouca horas de sono, está desenfreado. O que falta é yin.

Não é sobre ir rápido, mas sobre ir profundo, não é sobre apenas falar, mas escutar, não é sobre gratificações instantâneas e sim sobre retardar o desejo frenético do ego. Fazer menos na vida é muitas vezes fazer mais. Hoje a professora Jo Phee falou algo que me tocou profundamente.

“A sociedade tem medo de fazer menos pois na verdade está com medo de morrer”.

SIM. O que morre quando não se faz nada? O ego. Michael Stone mencionou num de seus podcasts, (falando nisso vocês precisam escutá-lo), que a felicidade humana está na capacidade de você ficar sozinho em um quarto sem fazer nada. Sozinho, no escuro, sem fazer nada, é o yin absoluto. A sociedade está depravada de descanso. Quantos de vocês tem insônia, ou depressão, ou quantas pessoas que vocês conhecem tomam tarja preta? A sociedade está constantemente fazendo, fazendo, fazendo e se quer pausando. Na verdade construímos dentro de nós esse orgulho fajuto de que se tornarmos workaholic estaremos realmente levando a vida a sério. Mas será que estamos realmente em equilíbrio com a natureza? A natureza descansa, não descansa?

Quanto praticamos yoga a limpeza energética do nadis nos leva ao estado de homeostase. Na prática de yin yoga, quando fazemos as posturas as linhas dos meridianos se fortificam e o sistema nervoso também se acalma, levando o praticante a homeostase.

O segredo de uma vida plena, é simples. É muito simples e não se encontra na eliminação, e sim na habilidade de fazer o jogo certo para todo dia conseguir “bater” e não cair no buraco do extremo, sem blefar. A distorção entre os gunas dos personagens e da natureza é o que chamamos de doença, pois quando se tem clareza de quem se é se flui, e não há mais a necessidade de segurar tal identidade com apego. Inteligência é perceber que os gunas estão atuando neles mesmos, é prakrti atuando na própria prakrti.

Aprender a se equilibrar é seguir o ritmo da música, e nos dias de hoje a música que mais precisamos é a do silêncio. Assim nos tornamos livres, e como o professor Jonas disse recentemente “Um ser humano saudável, é um ser humano que flui na vida”.

Harih Om,
Raphael Melo.

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Meditem #6 https://blog.omkula.com.br/meditem-6/ https://blog.omkula.com.br/meditem-6/#respond Wed, 07 Oct 2026 08:00:00 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=382 Meditação é um reencontro com a sincera interdependência dos humanos com demais seres.

Não meditamos para esquecer os problemas ou esquecer o mundo, mas pelo contrário.

Meditar é um ato de coragem ainda pouco entendido pela mente doentia ocidental – enfrentamos pacificamente os nossos anjos e demônios de forma equânime.

Não há nada mais sagrado do que a troca natural sem cobrança do inspirar e do expirar. Uma fusão melódica aonde ambos nutrem ambos sem disputa, competição ou qualquer rivalidade.

Quantas árvores respiram a minha volta quando eu expiro? Quantas humanos respiram quando elas expiram. É lindo, é pura poesia não é?

Meditação é entrar em profundidade com as camadas menos superficiais da nossa inteireza. É colidir com o ego, mas sem brutalidade, e sim doçura.

Meditar é observar sem reatividade mas com coragem os padrões que sabemos ou aqueles que jamais saberíamos da existência sem o tão importante parar.

É dar espaço sem fugir e ao mesmo tempo perceber que uma paranoia tão verdadeira nunca existiu quando se alinha o foco no bálsamo do momento presente.

Meditar é um ato de amor aonde não há romance utópico, projeção ou medo.

Meditar é a possibilidade de criar uma nova história, aonde o final nunca vai existir, pois há um insight verdadeiro que reflete a única vertente permanente da vida: o momento presente. Aqui, todos são felizes.

Meditem!

Com amor, Rapha

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A obsessão pela forma, a “asanerexia” e o samskara coletivo que vivemos #5 https://blog.omkula.com.br/a-obsessao-pela-forma-a-asanerexia-e-o-samskara-coletivo-que-vivemos-5/ https://blog.omkula.com.br/a-obsessao-pela-forma-a-asanerexia-e-o-samskara-coletivo-que-vivemos-5/#respond Thu, 01 Oct 2026 22:08:46 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=372 Alguns anos atrás quando estava ensinando um curso de formação intensivo na cidade de Shenzhen no sul da China, uma das alunas reclamou com a gerência da escola que suas expectativas não estavam sendo alcançadas. Ela queria parar o curso e receber o dinheiro de volta. Eu resolvi ir falar diretamente com a estudante para entender exatamente o cenário polêmico. Em um dos intervalos, fui até ela e perguntei o que estava acontecendo. Ela me disse que já estávamos indo para a terceira semana do curso e ainda não tinha conseguido fazer hanumanasana, pois seus quadris estavam muito distantes do solo. No entanto muitos dos seus colegas conseguiam fazer esse asana com maestria, e que ela jamais seria uma boa professora se não fizesse. 

É curioso a proporção que o yoga tomou. Não é culpa do yoga, nem dela, e sim do sistema onde vivemos. Tais situações acontecem não só no ocidente mas hoje em dia também na própria Índia. Digo isso pois conheço muitos professores Indianos pelo mundo. Não sei se no passado era pior ou melhor, afinal o que era ensinado 2 mil anos atrás ainda é ensinado nos dias de hoje. O que sei é que nosso papel como praticante ou professor é comunicar e compartilhar a essência do yoga, não como um telefone sem fio que distorce o significado fidedigno da mensagem, mas sim como um contador de história fiel, que ensina a essência da verdade através da lente do seu coração.

A forma externa é deslumbrante, apaixonante, hipnotizante, excitante e bela. Quem não se encanta pelo belo por do sol do deserto do Rajastão, ou o verde esmeralda do mar de Bali? As formas que compõem a natureza do planeta são perfeitas, assim como o corpo humano. Explorar a potencialidade corporal humana, se você tiver os ossos para isso, e prestigiar o trabalho de bailarinos profissionais, cirquences, acrobatas, e até mesmo yogis elásticos, é admirável. No entanto, o “x” dá questão está no velho e bom amigo (ou inimigo), EGO. 

O mar não se importa em como deve oferecer suas ondas nas rochas, nem o sol em como deve emitir seus raios sobre as dunas, nem o yogi que está em total absorção no momento presente. A natureza não precisa de validação para ser amada, nem o verdadeiro artista. Este sabe no âmago do seu ser que sua obra veio do coração, independente do que irão dizer sobre seu talento. 

A obsessão pela forma se tornou uma “asanerexia”, e professores de yoga se tornaram “performers” de corpos flexíveis. O medo da não aceitação é a mesma doença que existe na indústria global da beleza/fashion/moda por exemplo. Se não fazer tal séria do yoga, ou postura, ou isso, ou aquilo, ou decorar tal texto, ou mantra…jamais será aceito. Se não tiver o abdômen de tal jeito, ou a bunda de tal tamanho, você não será amada! É o samskara coletivo que cada país possui. 

O que de fato buscamos dentro de toda essa miopia de aceitação? Queremos ser profundamente amados. Mudar o sistema não é fácil, pois a indústria fatura em cima de tudo isso. No entanto, meu caro, se você compartilha o yoga de forma autêntica, saiba que sempre fomos contra a maré das tendências do samsara.

Meu professor costuma dizer que aquele que está presente no asana desaparece. Obviamente não leve isso literalmente, afinal eu nunca vi ninguém desaparecer na minha frente numa aula de meditação (risos). Suas palavras descrevem o ego, que quando neutralizado, excede tempo e espaço. O objetivo da prática como o professor Leslie Kaminoff diz não é levar você para algum lugar, e sim, retirar do meio do caminho o que te impede de simplesmente estar vivendo o agora. 

O prazer genuíno que você tem a praticar yoga repetidamente não é pela playlist (pelo menos não deveria ser), pela postura alcançada, ou ajuste do professor. Voltamos pois sentimos o sabor atemporal de nirodha. O deleito em mergulhar no momento presente e se despir de qualquer rótulo e atributo a experiência sentida. Em total suspensão reconhecemos o poder da liberdade e nesse estado nada mais importa. 

E afinal de conta de que importa fazer um espacate se você não consegue nem ir comprar um pão na padaria nessa posição?

Expliquei para a aluna que yoga era muito mais do que isso, e decorri todos os temas que estávamos estudando ao longo do curso, os insights filosóficos, os saberes ancestrais, a beleza misteriosa das formas internas e muito mais. Até disse, que no Brasil ela seria uma das mais flexíveis na sala de aula (lol), e que tudo é uma questão de contexto. Ela entendeu, mas não entendeu…mas sei que um dia irá entender.

As vezes queremos comer uma fruta fora do tempo e a puxamos da árvore. Assim é o conhecimento. E é um desafio remar contra sistemas que ultra validam o externo. Lembro quando mudei para a China em 2010, e o quanto me sentia inferior pela minha prática de asana durona. Mas quando se ganha intimidade e confiança no legado passado de mestre para discípulo, não se precisa tentar provar mais nada para ninguém, pois o param param é o saber que nutre sem ego. Quando conheci Richard Freeman em 2013, isso mudou, renasci.

Ela pelo menos terminou o curso. Acredito que de alguma forma a semente foi plantada. 

Que possamos no estado de yoga estabelecer intimidade como o momento presente, independente de como o nossa asana precise aparecer externamente, afinal, se soubéssemos a infinidade de variações pélvicas que existem no planeta terra, compreenderíamos que as diferenças externas são tão belas quanto as variações “esqueléticas” das árvores, nuvens, flores, montanhas, ondas…

Com amor, 

Rapha

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Reflexões Asiáticas, a profundidade do reverenciar #4 https://blog.omkula.com.br/reflexoes-asiaticas-a-profundidade-do-reverenciar-4/ https://blog.omkula.com.br/reflexoes-asiaticas-a-profundidade-do-reverenciar-4/#respond Thu, 24 Sep 2026 12:00:00 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=370 Morar na Ásia por muitos anos me ensinou uma série de coisas. Uma das mais belas é que o reverenciar pode ser mais profundo e íntimo que um beijo de oi, ou um abraço de tchau. 

O namaste se popularizou de uma tal forma no ecossistema do yoga ocidental, quase como um gesto obrigatório antes de começar uma aula de yoga. Mas temos que nos lembrar que a repetição distante da mindful intenção se torna robótica, como se cabos habituais inconscientes movem-se as nossas mãos a frente do peito, ao invés dos nossos corações. 

No budismo, o gesto de se curvar como comprimento reflete uma tríplice verdade correlacionada. São os três pilares do Dharma, Sangha e Buddha. 

A palavra Dharma possui muitos significados, porém nesse contexto significa os ensinamentos que sustentam a base filosófica do conhecimento. Dentro da infinidade imensurável de cânions e mais textos e escrituras do budismo em suas diferentes vertentes, na minha humilde opinião, a compaixão é a que mais me toca, e a que eu acho mais relevante e necessária também, ainda mais num mundo de guerras. Até mesmo dentro do budismo Zen, muitas vezes mal interpretado por leigos que o resumem na definição “nada existe, Deus não existe, então só existe o vazio”. Que triste, seria tudo isso, né? Um buraco negro de vazio…

A verdade é que a realidade em que vivemos, absolutamente tudo a nossa volta, é vazio de intrínseca realidade, pois coexiste inseparavelmente de um eu (falso eu). O verdadeiro eu é vazio de si. Algo só pode ser vazio de si se for cheio de algo, como um copo no ar, ou um balde num poço com água. Esse paradoxo da realidade, aonde o nada só pode ser tudo e vice versa é brilhantemente traduzido na frase do belíssimo filósofo Naga Arjuna. Ps.: tinha que ser um cobra, pra variar, né? 

“Sunyata Karuna garbham” 

A vacuidade é o útero da compaixão. 

Esse vazio que também é mencionado por Patanjali nos Yoga Sutras (svarupa sunyata) assim como em textos do Hatha Yoga, e também de uma outra forma, porém bastante similar nos Upanishads, está relacionada ao ego. Como no conhecido exemplo:  a lamparina é vazia de si já que se a investigarmos mais a fundo descobriremos que em sua essência não passa de barro.

Temos que desapegar, assim como uma serpente troca de pele, e uma mãe pari um filho, da nossa identidade que tanto queremos manter para podermos emanar o brilho da compaixão. Nessa vida não viemos para ganhar e sim para dar, e só se pode servir com amor genuíno quando o egoísmo do eu se torna vazio. Vazio de ego. 

O Dharma sustenta a prática e merece ser reverenciado a cada respiração. Sem o conhecimento partilhado pelos nossos professores jamais estaríamos lendo esse texto agora. Buddha disse, aquele que está interessado no Dharma não está interessado em nada mais. 

E sem a comunidade de pessoas que vivenciam o conhecimento tal realização também não seria possível. Pois é a comunidade que faz com que os ensinamentos tornem-se aplicáveis e também sejam mantidos por milênios. É aquele velho ditado, sem aluno não há professor. E de acordo com o Buddha, o próximo Buddha seria o Sangha. 

Mas eu diria que o Sangha é muito mais do que isso. É a fé que sustentamos em manter a prática acesa devido à outros seres vivos, especialmente humanos, a nossa volta. Em comunidade podemos ir mais longe… para a outra margem do rio. “Om gate gate paragate parasamgate boddhi svaha”

E para esse rio se encontrar no mar, teve que deixar de ser uma gota, abrir mão de si pra se juntar no todo. E uma gota sozinha jamais chegaria no oceano da consciência. 

E quem seria essa força consciente pulsante indiferente de tempo e espaço? Buddha. 

O Buddha neste caso não se refere a uma pessoa em particular (como Gautama), mas o potencial latente vasto da consciência infinita de pura bem aventurança presente. 

Buddha é a pura compaixão, até aonde o conhecimento é transcendido. Buddha é “awareness”. É a experiência não dogmática da realidade plural que tece todo os mundos. Sem essa força pulsante, nada somos. Ou melhor, só somos por causa dessa consciência.

A palavra Buddha vem do radical “Budh” que significa despertar. Reverenciar o despertar não é reverenciar alguém, mas esse brilho que está sempre acessível e ao nosso alcance. Como no star wars, “a força”, lembram? Hehe

Então meus caros, quando se curvarem na próxima aula de yoga, num templo, ou na floresta, lembrem-se que não estamos se reverenciando necessariamente para o professor, mas para os pilares que sustentam a prática, presente em tudo. 

Om Mani padme hum 

Rapha

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Retire o m(eu) antes da sentença, e veja o que vai restar. #3 https://blog.omkula.com.br/retire-o-meu-antes-da-sentenca-e-veja-o-que-vai-restar-3/ https://blog.omkula.com.br/retire-o-meu-antes-da-sentenca-e-veja-o-que-vai-restar-3/#respond Thu, 17 Sep 2026 08:00:00 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=361 Vem racismo e me ensina a te vencer,
Quebrar 300 anos de ironia opressora,
Derrubar muros, tabus e fazer sonhos realidade acontecer.

Nunca é tarde para aprender, crescer e se reinventar.
Faça sua parte e ensine pelo exemplo, 
Esta ainda é a melhor forma de ajudar o outro a de fato mudar.

O momento para a mudança não é ontem, nem amanhã, pulsa sempre no agora.
Aja, atue, mude e se expresse,
Marche e ajude o mundo de lá de fora.

Enquanto houver sofrimento você também irá sofrer, 
Somos todos e todos um,
Mais amor, e por favor menos poder.

Grandes mestres da história, 
Sábios ativistas do amor,
Gandhi e Martin Luther king livraram milhões da injustiça e da dor.

Vibramos num mundo com mais igualdade,
Que respirem sem um joelho no pescoço,
Sem balas perdidas, inferioridade e maldade.

Muitos acham que yoga
Não é só meditar e não agir?
Não! Krsna já ensinava Arjuna, o não agir é também uma forma de agir.

Guerreiro usou de todo o seu intelecto,
Maestro yogi, sem ego lutou.
Cumpriu seu dharma sem identidade, 
Com devoção ao seu dever por completo se entregou.

Meditar de nada importa se a sua prática não se tornar ação,
Expanda não apenas os minutos na almofada, 
Sua reformas no dia-a-dia, planeta, no social, com paz e integração. 

A atenção plena em cada ato só serve,
Se houver generosidade e bondade.
Estenda com equilíbrio e equanimidade a mão a todos da comunidade.

Buda em seu primeiro sermão estava em chamas e sem papas na língua,
Cutucou o ego do patriarcado ritualístico,
Expõe os verdadeiros valores da prática e da vida.

Jesus em momentos de angústia usou da raiva como o fogo do ensinamento,
Derrubou os vendedores da ignorância,
Libertou com proeza o veneno do humano condicionamento.

Eu acredito em uma prática de constante investigação, 
Das quebras de histórias, paradigmas mentais,
Do extremo político, social, reativo e da desunião.

O foco do yoga nunca foi nem será o prazer e a própria felicidade, 
Isso só nos aprisiona em um objetivo egoístico fora da real essência: vazia intrínseca realidade.

O foco do yoga é a verdadeira libertação!
Praticamos todos os dias (não só nos da moda) pra entender a mente: nosso maior vilão.

Manas cria narrativas que por meio desta cria ondas de muita separação,
Rotulando, intitulando, achando que a “minha” maneira é a única forma, o jeito correto, a concretização. 

Retiro o m(eu) antes da sentença, e veja o que vai restar? 
Os gunas atuando no gunas, a revelação de Purusha:
Sem forma, cor, credo, partido…livre como o ar.

Continue aprendendo e a vida inteira se auto perguntando,
Uma mente aberta é um coração aberto,
Use do veneno pra achar o néctar e não apenas criticando e contaminando.

A inteligência de Deus não é singular,
Por todas as veias dos seres move-se.
Que a justiça aconteça, a paz reine, e que o intelecto liberte a mente condicionada que cega não enxerga o aprisionamento do próprio ego (achando que está certo), e por conseguinte: muito sofre-se.

Patanjali tem infinitas cabeças que cantam com louvor em múltiplas línguas.
Um corpo humano e um único rabo,
Simboliza a igualdade, mesma raiz , mesmo atman, mesmas vidas.

A verdadeira prisão é a sua mente,
Que sem cessar ataca os outros,
Coloca você no trono único do pensamento coerente.

E assim começa a raiz e o ciclo do sofrimento,
Não ver as coisas como elas são: avidya.
Categorizar coisas e a reduzir em um nome, achar superior a todo momento.

Maya te olha e te ironiza e você cai nesta cilada incessante,
Acha que é melhor que o outro,
O samsara adora esse tal jogo viciante.

Que a prática crie pontes e não muros,
Comece a desenvolver mais empatia e menos separação,
Dissolva o ódio com amor e cultive o sagrado perdão.

Por mais benéfica que seja a sua história, 
Lembre-se que yoga é a suspensão da mente, 
Só assim terá os insights profundos de como agir inteligentemente.

Se deixa de incluir todos os seres no seu coração,
Inclusive os que te fazem mal,
Ainda terá experiências de insatisfação.

Para se “livrar” do sofrimento se pratica o discernimento consciente, 
Como uma espada que corta a ignorância,
Abra os olhos pra ver que não existe um eu separado no que você considera um eu permanente.

Se liberte e permita agir com equanimidade, 
Via os princípios básicos da ética, 
Sem julgar o outro mas também sem neutralidade. 

Cuida de si e cuide dos outros com afeto e generosidade,
Nos tempos das trevas que descobrirmos,
Os verdadeiros heróis da sociedade.

Ajude, escute e mantenha seu ego domado com mais generosidade.
O sangha necessita de sadhus e mahatmas,
Menos reatividade, mais amor, menos negatividade

Harih om tat sat

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Diwali, uma Igreja na Itália, Sita, Rama e a Luz Divina #2 https://blog.omkula.com.br/diwali-uma-igreja-na-italia-sita-rama-e-a-luz-divina-2/ https://blog.omkula.com.br/diwali-uma-igreja-na-italia-sita-rama-e-a-luz-divina-2/#respond Wed, 16 Sep 2026 23:48:48 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=353 Tem uma força maior que está sempre nos guiando em direção a luz divina. Essa é a força de Rama. É materializar o milagre, e nos mostrar que o ímpeto do bem é como uma onda que sempre nos direciona ao mar da consciência. O que parecia impossível torna-se alcançável, pois não existe diferença alguma entre o que a mente pensa e o que ele faz, lembrem-se disso. 

Citta é um portal límpido pulsante que vibra na mais alta liberdade; lá mora a nossa verdadeira essência. A bússola de buddhi, a nossa inteligência superior refinada, quando bem polida nos traz insights sobre quem de fato somos. Não somos nossos traumas, nem medos, nem aflições, sofrimentos, e narrativas sem fins. Somos em essência um rio límpido de amor. 

O amor é livre e amar e espalhar o amor é a melhor forma de semear nosso potencial verdadeiro. Com saúde, abundância, beleza divina, prosperidade e luz conseguimos não só iluminar nós mesmos mas todos a nossa volta. 

No domingo passado o venerado Diwali foi celebrado, este belíssimo anual festival das luzes que marca a vitória do bem (luz) sobre o mal (escuridão), na qual o venerável e justo guerreiro Rama (incarnação do Deus Visnu) junto a seus aliados (ursos, macacos e animais da floresta) ganham a batalha demoníaca da ignorância sobre Ravana, o poderoso ganancioso yogi rei do Sri Lanka. Depois de ser exilado por 13 anos na floresta junto a sua amada consorte Sita (incarnação de Laksmi) e seu honrável irmão Lakshaman, Rama corta as 10 cabeças de seu enigmo numa batalha árdua, e com a ajuda do Deus macaco Hanuman, recupera Sita que havia sido raptada e aprisionada no palácio materialista de Ravana. 

Domingo passado depois de ter terminado meu workshop na Itália resolvi sair para dar uma volta na cidadezinha local – aquelas que ainda colocam na parede da praça fotos em um sulfite daqueles que acabaram de partir. A terra parece mais perto do céu nessa parte do mundo e gosto de pensar que aqui estou mais próximo dos anjos. Humanos trajados de roupas medievais, sanfonas, bandeiras vermelhas, verdes e brancas, pernas de pau e crianças com pirulitos na mão e sorriso no rosto, faziam da realidade a minha frente um conto histórico de filme. As vezes me confundo, será que o filme é a realidade ou a realidade é um filme? (Risos).

Enquanto perambulava sem GPS ou mapa algum me deparei com uma igreja no “mero acaso”. A porta estava fechada, porém fiéis já se reuniam para a missa de domingo que estava prestes a começar.

Me acomodei em um dos cantos e comecei minhas orações da forma com que aprendi com meus pais e avós. Sentei novamente no banco enquanto contemplava a harmonia do altar e a mescla intensa de cores entre dourados, pinturas a óleo e veias de madeira.

A pintura no céu da igreja era magnífica e me lembrou a capela cistina. Bravo! Minha vontade era fazer sarvangasana e manter meu drsti no teto por 25 respirações, mas aparecer nas manchetes de Mirano, ofender o clero e ser deportado talvez não seria um bom karma evolutivo.

Enquanto me perdia na arte avistei na minha esquerda uma bela imagem de nossa senhora e um altar com velas. Eu estava em busca de uma vela, pois segundo a tradição no dia de Diwali devemos ascender uma vela próxima à janela mantê-la durante a noite toda. Quando Sita e Rama saíram do Sri Lanka, as pessoas nos vilarejos foram ascendendo lamparinas para ajudá-los a achar o caminho de volta em direção ao império de Ayodya.

Acender uma velinha é uma forma singela de atrair Laksmi, a energia da prosperidade e luz, para guiar o nosso caminho para que possamos voltar para nossa casa: o deleito da consciência pura – o reconhecer de que somos Atman. Ascender a vela significa pedir prosperidade, abundância, luz e bençãos para a nós e a humanidade. Ali sabia o porque havia ido à igreja.

A luz sempre nos chama para casa. Porém o material também. O ego é como um alto falante as alturas que ensurdece a consciência e quer vetar o reencontro do Atma com o Paramatma, de Prakrti e Purusha, de Sita e Rama de você com Deus. Em essência somos luz, e há uma voz profunda dentro de você ecoando a todo instante: vai, a luz te espera, beba do néctar divino.

O caminho com ajuda é muito mais fácil e essa força tremendamente gigante se chama buddhi, e nesse conto (no conto de Ramayana) é representada por Hanuman. Buddhi é a inteligência pura que revela a nossa natureza e traz compressão de que não somos a matéria, e que há algo por trás da “grande comédia” da vida apenas sendo.

Ravana, o demônio, quer controle, apego. Ele já tinha inúmeras mulheres, mas ele queria exclusivamente a de Rama. Ravana tinha muito dinheiro e ofereceu tudo de mais material que qualquer pessoa gostaria de ganhar: diamantes, bolsas de luxo, mansões, carros, jóias…

No entanto, quando se sabe o que de fato verdadeiramente importa na vida, nosso drsti não oscila nem por 1 segundo para o lado das trevas.

Essa é a força de Sita, a força daquela que vibra na real prosperidade. Essa é a maior riqueza que podemos ter, sabermos quem somos. Sita não aceitou absolutamente nada de Ravana, pois estava convicta de que Rama iria resgata-la.

A consciência de Rama, que representa a onipotência divina, está sempre a nossa busca nos lembrando de quem somos. Essa é a força do dharma. Podemos ir no shopping, num bar, ou ir em um templo rezar ou estar com a nossa família.

O reencontro de Sita e Rama na verdade é o reconhecer atemporal que vive na espera latente dentro de nossos corações.

Que o Dharma vença e volte a se estabelecer. Luz na vida de todos vocês meus queridos.

Não poderia ter sido melhor ter completado mais uma volta ao sol ensinando o dharma e celebrando o Diwali no dia 12 novembro.

Harih Om 💛

Raphael Melo

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A impermanência #1 https://blog.omkula.com.br/a-impermanencia-1/ https://blog.omkula.com.br/a-impermanencia-1/#comments Wed, 16 Sep 2026 14:26:22 +0000 https://blog.omkula.com.br/?p=347 As nuvens em Bruxelas são tão próximas da terra que até parece possível tocá-las ao esticar os braços em direção ao céu em “ekam” (na saudação ao sol). Elas estão sempre movendo-se, assim como a dança dos gunas.

Por mais que pareça óbvio, vocês já pararam para pensar que o que não se move, morre? A mudança é um fenômeno crucial para manter a ordem existencial da vida, no entanto, quando se trata de relacionamento queremos reduzir a pessoa com quem nos casamos há 15 anos atrás em uma moldura estática e pregá-la na parede, não só em aparência, mas em gostos, interesses, hábitos etc. A mente não quer apenas enrijecer o externo, mas nós mesmos, evitando que nossa persona mude e nossa pele murche.

“Anitya” significa impermanência, e é uma das maiores verdades existênciais universais que presenciamos. Notamos isso no compasso de cada respiração: tudo está em constante mudança e transformação. 

A lei da impermanência pode ser encarada como algo negativo, ou positivo, dependendo do resultado das ações que circundam tal experiência, porém deveria ser compreendida como algo natural. 

Lembro que quando a pandemia começou muitos estávamos desesperados pela insegurança de um futuro desconhecido, porém, é utópico assegurar um futuro que nunca chegou a partir de uma narrativa do passado que já se foi, com base em um presente volátil. Vivemos sofrendo por um futuro sólido ilusório que nunca chegou, e quando algo sai fora do que esperávamos, esperneamos. O presente é um campo de possibilidades sem fim. O presente nunca muda, pois está sempre mudando, começando e terminando…é um ciclo sem fim.  

Fazer as pazes com a impermanência é sentar na frente do espelho e dizer a si mesmo: sou maduro e os acontecimentos da vida não são pessoais. A característica da impermanência oferece sempre o começo e o fim, e ambos acontecem simultaneamente como os padrões de prana e apana no hatha yoga. Quando algo deixa de ser e se transforma, algo novo aparece.

Uma vez uma criança perguntou ao consagrado mestre Zen vietnamita Thích Nhất Hạn o que iria acontecer quando o cachorrinho dela morresse. Ele respondeu:

– Está vendo essas nuvens no céu? Elas antes eram a água do lago que evaporaram e viraram nuvens.  As nuvens vão se transformar em chuva e a chuva irá voltar a ser o lago. O mesmo irá acontecer com o seu cachorrinho, ele irá se transformar.

Thích Nhất Hạn estava ensinando o princípio da impermanência ao jovem menino. Queremos que a nossa vida seja linear, porém se olharmos de perto tudo a nossa volta é fluído. Quando perdemos algo ou sentimos dor, a sensação é que a história que carregávamos é interrompida, já que tentamos o tempo todo manter aquilo que é líquido, sólido. No entanto, quando se vive em contato com a liberdade da impermanência existencial, as máscaras não mais ficam grudadas na nossa face e a tendência é não levarmos tudo tão pessoal.

Quantas sensações diferentes você já teve hoje? Quantos pensamentos? Tudo que percebemos está constantemente mudando. Nos momentos estáveis é mais fácil ter consciência o suficiente para entender a ciranda cambial da vida, mas quando sentimos na pele o ego perdendo sua amarra, compreender a impermanência como uma qualidade existencial natural parece uma missão impossível.

Se tivermos cada vez mais a consciência de que a impermanência é uma constância da vida, podemos pelo menos tentar parar e perguntar a si mesmo a seguinte frase nos momentos difíceis: “Essa situação é permanente ou impermanente?” 

No fundo sabemos tudo passa, e isso também vai passar meus queridos.

E nos momentos mágicos curtam a vida com intensidade, pois sabemos que eles também vão passar.

Com amor, 
Rapha

Uma resposta para “A impermanência #1”

  1. Avatar de Natalia
    Natalia

    Tudo sempre passa🙏

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